Conteúdo do Artigo

Últimos Artigos

A "primavera" conciliar da Igreja é uma miragem
Proibido proibir no Dicastério para a Doutrina da Fé
Ecologia Integral na veia: Análise da fala do Bispo de Mogi das Cruzes
São José, modelo de virilidade
"Queremos padres que nos digam o que não queremos escutar!"

Categorias

Colunas

Augusto Pola Júnior

Blog do Augusto

Martelo dos Influencers

Em breve

Padre Javier Ravasi

Que no te la cuenten

A situação da Igreja Católica na Itália: Um quadro sombrio com um raio de esperança

Papa Francisco abençoando da janela a praça de São Pedro Vazia
Foto: Reuters
Por Gaetano Masciullo

Nas últimas décadas, os bispos favoreceram o apoio a causas sociais em detrimento de salvaguardar a ortodoxia, remodelando a Igreja de modo a torná-la uma organização humanitária, quase um apêndice da ONU. A atual incapacidade da Igreja de inspirar e guiar as pessoas em direção a um propósito maior está deixando-a vulnerável num contexto de um mundo cada vez mais consumido pela ansiedade e pelo egoísmo.

Enquanto a Igreja italiana se aproxima de sua Assembleia Sinodal, programada para ocorrer no período de 15 a 17 de novembro, um relatório recente do CENSIS (Centro Studi Investimenti Sociali) mostrou dados sombrios sobre o atual estado da fé na Itália. Encomendado pela Conferência Episcopal Italiana, este relatório revela tendências preocupantes dentro da Igreja Católica, pelo menos na da Itália, que ainda é vista por todo mundo como sendo o coração do catolicismo. Os dados revelam uma profunda crise espiritual, refletida nas lutas da Igreja do Papa Bergoglio, principalmente depois de décadas de tentativas de alinhamento com as tendências sociais contemporâneas em detrimento do fortalecimento da sua própria identidade. Na Itália, os desafios da Igreja estão se tornando cada vez mais evidentes.

Livraria do ISA 350x350

De acordo com o estudo do CENSIS, que pesquisou uma amostra de 1.000 adultos italianos, 71,1% da população ainda se identifica como católica. No entanto, apenas 15,3% se consideram praticantes, enquanto 20,9% dos que se dizem católicos declaram que são “não praticantes”. Essa estatística revela uma significativa desconexão entre a identidade católica e a prática religiosa, refletindo uma tendência mais ampla da Europa em direção ao que pode ser denominado como um apego cultural, em vez de religioso — e, portanto, autêntico — ao catolicismo.

O relatório do CENSIS também evidencia uma preocupante mudança quanto às expectativas dos católicos praticantes, com 60,8% afirmando que a Igreja deve se adaptar às novas sensibilidades culturais. Por décadas, a liderança católica tem implementado e encorajado mudanças que visam tornar a Igreja mais atraente às sensibilidades modernas, mas tais ajustes não provocaram engajamento genuíno nem resultados promissores ao futuro do próprio catolicismo; na verdade, ocorreu o oposto. Aqueles que hoje permanecem na Igreja geralmente mantêm crenças e expectativas que lembram as piores formas de secularismo, sugerindo que os esforços de modernização levaram a Igreja a abandonar sua identidade missionária.

Curiosamente, cerca de metade daqueles que raramente ou nunca vão à Missa (estamos falando de 55,8% da amostra total) afirmam “viver sua fé internamente” sem sentir nenhuma necessidade de participar de celebrações litúrgicas. De fato, enquanto 66% dos entrevistados relataram que rezam, as razões por trás dessas orações mostram o quão desconectados tais atos estão de uma vida espiritual robusta. Por exemplo, 39,4% rezam sobretudo durante momentos de intensa emoção, enquanto 33,5% rezam por medo ou por busca de conforto durante as dificuldades. Assim, para muitos, a oração se tornou uma resposta utilitarista e perturbadoramente sentimental às dificuldades da vida. Não se trata da respiração da alma, do meio necessário para preservar a graça divina recebida por meio dos sacramentos.

O relatório do CENSIS também mostra que, para muitos, a Igreja não é mais vista como a principal guia espiritual, mater et magistra gentium, senão como uma instituição de caridade — ou mais precisamente, filantrópica — focada principalmente nos necessitados, marginalizados e pobres. O papel doutrinário da Igreja desapareceu da consciência coletiva, diminuiu dentro da própria estrutura da Igreja e por vontade de seus próprios líderes. Nas últimas décadas, os bispos favoreceram o apoio a causas sociais em detrimento da salvaguarda da ortodoxia, remodelando a Igreja, não apenas aos olhos do público, para ser uma organização humanitária, quase um apêndice da ONU.

Para 45,1% dos que deliberadamente se distanciam do catolicismo, a Igreja é vista como uma instituição ultrapassada e obsoleta. Presa entre o secularismo exterior e o modernismo interior, a Igreja parece ter perdido sua voz única, comprometendo assim sua imagem pública e ao mesmo tempo não garantindo a obediência de seus fiéis.

Livraria do ISA 350x350

Em sua interpretação dos dados, o presidente do CENSIS, Giuseppe De Rita, reconhece essa crescente desconexão. Ele descreve uma “área cinzenta” dentro da Igreja de hoje, atribuindo essa ambiguidade em parte ao individualismo desenfreado, mas também a uma Igreja que “reluta para apontar para um ‘além'”. De acordo com De Rita, a atual incapacidade da Igreja de inspirar e guiar as pessoas em direção a um propósito maior a deixa vulnerável num mundo cada vez mais consumido pela ansiedade e egoísmo. Enfatizar experiências coletivas, muitas vezes circunscritas em termos políticos, é insuficiente para aqueles que buscam um sentido espiritual profundo. Bem sabemos que o homem foi criado para Deus e que, como escreveu o grande Santo Agostinho, o coração humano ficará inquieto enquanto não repousar no único Deus verdadeiro.

Contudo, há ainda outra estatística no relatório que merece ser destacada. Entre os católicos praticantes, 43,9% apreciam “a beleza dos ritos do passado”. Essa apreciação inclui a Missa Tridentina, ainda desconhecida para muitos (embora mais católicos estejam cientes de sua existência do que no passado), bem como a Missa Novus Ordo celebrada com reverência e não como um espetáculo de baixo nível. Além disso, os católicos expressam nostalgia por muitos ritos tradicionais que — com a cumplicidade dos próprios bispos — parecem quase ter desaparecido da devoção popular, como a procissão de Corpus Christi.

Essas estatísticas, portanto, revelam um problema central: a inclinação da Igreja moderna para preocupações horizontais com foco no social a empobreceu espiritualmente, tornando-a incapaz de responder aos anseios mais profundos do povo de Deus. Este relatório sublinha uma grave deficiência na atual estratégia da Igreja: um fracasso em nutrir e fortalecer a fé, o fundamento verdadeiramente único para qualquer ato autêntico de caridade. Sem fé, a caridade se reduz à filantropia, e a filantropia não dá glória a Deus, ajudando aos outros de forma hipócrita. É meramente um ato de adoração ao ego.

À luz dessas tendências preocupantes e da recente publicação do documento pós-sinodal, pode ser hora de a Igreja reconsiderar seriamente suas prioridades. A iminente Assembleia Sinodal Italiana (mais uma!) não deveria ser só uma ocasião para discutir novas formas de engajamento social ou de ensinamentos teológicos atualizados, mas inapropriados. Em vez disso, poderia representar uma oportunidade de a Igreja refletir profundamente sobre sua própria identidade e missão. Em vez de discussões sinodais intermináveis ​​que frequentemente resultam em erros vergonhosos, a Igreja teria mais benefício se redescobrisse de sua herança espiritual. A reintrodução dos católicos à riqueza das liturgias, doutrinas e devoções tradicionais poderia revitalizar a Igreja italiana (e outras), edificando-a firmemente na Verdade e oferecendo ao povo fiel algo verdadeiramente fértil. Como sempre funcionou ao longo da história, duas coisas atraem as pessoas a Cristo: liturgia e catequese, mas especialmente liturgia.

Talvez até seja irônico, mas não deixa de ser apropriado, notar que uma instituição tão historicamente progressista como o CENSIS confirmou o que muitos católicos tradicionais há muito tempo sentiam: a necessidade de reformar não as estruturas, mas o espírito do católico. Em tempos de convulsão moral e cultural, a Igreja tem um papel vital de guiar a sociedade em direção ao que De Rita chama de “além” — uma visão que transcende o individualismo e as tendências sociais venenosas de hoje. Se a Igreja italiana deseja permanecer relevante, precisará recorrer às suas antigas fontes de fé, oferecendo aos fiéis um caminho que leve não somente a este mundo, mas à eternidade.

Fonte: The Remnant

Sobre Gaetano Masciullo

Compartilhar

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Telegram

Seja Membro Patrocinador

Cursos Exclusivos | Acesso a Artigos Restritos |
eBook/Leitura (Em breve) | Desconto na Loja

Assinatura Anual:
R$ 119,90
(R$ 10,00 por mês)

Assinatura Semestral:
R$ 89,90
(R$ 15,00 por mês)

Picture of Santo Atanasio

Santo Atanasio

Instituto Santo Atanásio (Curitiba - PR). Associação de leigos católicos que tem por objetivo promover a Fé e a Cultura Católica na sociedade.
Todos os posts do autor
Dom Erwin Krauter - Lula e Dom Cladio Hummes
Kräutler: documento final do Sínodo já está escrito, mas ninguém sabe quem o redigiu
Dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu e um dos principais organizadores do Sínodo da Amazônia, confirmou...
Dickens - Tempos difícies - 35 faces de expressão
A quem seguir nos tempos atuais?
– “Tempos difíceis”, chamava Santa Teresa em relação aos seus – disse João, enquanto...
Jovens rezam em desagravo diante de uma blasfêmia idolátrica realizada na Igreja de São Jorge em Porto Alegre
Revisando a notícia do Terra: "4 jovens tentaram impedir ato religioso na Igreja de São Jorge em Porto Alegre"
Em artigo para o Terra, Juliano Haesbaert nos redige uma notícia sobre uma blasfêmia idolátrica (referida...
Viktor Orbán - primeiro-ministro da Hungria
Política Familiar da Hungria e Doutrina Social da Igreja
O jornal português Diário de Notícias escreveu a seguinte matéria: “Na Hungria, mulheres com quatro...
Prefeitura de Curitiba - Criança Trans
Greca: o católico gnóstico da alta cultura - Patifarias do início do segundo mandato
A coluna “Princípio e Fundamento: a verdadeira forma de governar”, aponta para os principais aspectos...

Comentários

Deixe um comentário

Search

Últimos ISA Cursos

Curso - Tópicos sobre a Oração
Filotéia ou Introdução à Vida Devota de São Francisco de Sales
I Seminário de Psicologia Tomista do Instituto Santo Atanásio
Curso - A Mística do Templo na Espiritualidade Beneditina
Curso Mistagogia Cristã - Instituto Santo Atanásio - ISA MEMBROS

Eventos presenciais

Carrinho de compras