“Longe de mim, o pecado e a tristeza!”, dizia São Felipe Néri. Dedico este texto especialmente a uma querida amiga que eventualmente partilha algo comigo sobre os seus maus momentos e me pede orações. E rogo ao Bom Pastor e à Virgem da Alegria para que as sugestões que aqui trazemos possam ajudar, além dela, muitas outras pessoas.
1 – Realizar coisas boas
Muitas vezes temos alegria em cumprir tarefas prazerosas que vão além das nossas obrigações regulares de trabalho e estudo. É preciso realizar coisas gratificantes, ainda que pequenas. Concluir um projeto pessoal, fazer algo valioso para outra pessoa, botar o quarto ou a casa em ordem… ter pequenos sucessos diários é muito importante! A consciência de que somos bons (porque a graça de Deus nos faz bons e porque nós somos, sim, capazes de corresponder bem a ela) me ajuda muito a sentir-me bem.
O êxito nas tarefas adicionais que nos propomos nos dá consciência do nosso valor! Os projetos e as boas obras que faço ajudam-me a lembrar que sou capaz de fazer muitas coisas boas e úteis, desde caprichar na limpeza da casa até escrever um artigo legal ou algumas poesias para o meu blog, visitar uma pessoa doente, terminar de ler um livro ou resenhar algum, aproximar-me de um morador de rua para conversar um pouco e lhe oferecer um almoço, rezar uma oração mais longa, fazer uma hora de adoração ou talvez uma vigília.
Enfim, importa realizar coisas boas que vão além das minhas obrigações corriqueiras e, admirando-as, ter aquele gostinho de “Eu fiz o que devia e, com a ajuda de Deus, fiz bem!”, “Eu consegui!”, “Good job, buddy!” “Eu me propus a fazer e, com o auxílio de Nosso Senhor, concluí o propósito. Louvado seja Deus!” (É bom lembrar-se sempre do auxílio divino nisso para evitar o orgulho e glorificá-Lo por ter me concedido realizar o meu intento.) Isso é muito recompensador!
2 – Turbinar a sua espiritualidade
Inquietar-me e ficar obcecado com os meus problemas, numa ruminação mental de males e insatisfações que se retroalimenta, é geralmente uma das principais causas de angústia. Para sair dessa dinâmica negativa, convém apaziguar o coração e tirar o foco de si. E uma das melhores formas de fazê-lo é demorar-se numa oração meditativa a partir de textos bíblicos, por exemplo. Ou rezar uma piedosa Via Sacra, contemplando bem a Paixão do Senhor, ou meditando na vida dos santos penitentes, estigmatizados e mártires, imaginando vivamente as provações, as torturas, os desprezos e as dores deles! Isso me dá consciência da relatividade das minhas, enquanto a fidelidade heroica deles me dá ânimo para lutar e resistir com bravura aos meus maus dias!
Convém ainda recordar que, ao longo da história da salvação e na minha própria vida, foram incontáveis as manifestações da Providência misericordiosa de Deus! E ser muito grato ao Senhor por isso, dando graças a Ele muitas vezes e nomeando, na oração, cada dom que Ele gratuitamente me deu!
Não só na vida dos mais melancólicos, mas igualmente na vida de todos os cristãos em geral, o sentimento contínuo de gratidão a Deus e a todos os benfeitores que já passaram por nossas vidas é algo fundamental, indispensável! “Em tudo, dai graças!”
É bom ainda lembrar-se dos numerosos relatos como o de Jó e outros emblemáticos justos a quem, após um longo período de provações e sofrimentos, porém vivido com paciência e fidelidade, o Senhor concedeu ao seu comprovado servo o dom necessitado ou, mais ainda, deu-lhe “cem vezes mais e a Vida Eterna”!
Pensar também na alegria oculta do “Consummatum est!” e compreender que, por mais que as coisas nesta vida possam ser difíceis, se formos fiéis até o fim, também teremos a nossa boa hora, a nossa partida bendita deste lacrimarum vale, mediante a qual contemplaremos a face amabilíssima e esplendorosa do Pai!
Outrossim, não se menospreze o valor de meditar muito na miséria e insignificância deste mundo, na fugacidade e ilusão das coisas que tanto valorizamos aqui, em comparação com os Bens eternos e com a própria eternidade, diante da qual mesmo 100 anos de angústia não são nada, não são mais que um cisco, não valem nem um ai!
Procurar boas leituras, filmes hagiográficos, músicas e pregações católicas em áudio também vem a calhar. Pra citar alguns exemplos, ontem e hoje retomei o relato do ensinamento de S. Francisco de Assis ao frei Leão sobre o que é a verdadeira alegria para um seguidor de Jesus; também li o testemunho do homem que, após sofrer longamente e não poder sequer dormir em razão de graves doenças oculares, recebeu o milagre que canonizou a Santa Dulce dos Pobres e voltou a dormir e a enxergar bem, como se tivesse tido sempre olhos perfeitamente saudáveis. E assisti novamente o filme da vida do Santo Padre Pio de Pietrelcina, que foi permeada não só de milagres, mas também de sofrimentos que muito lhe aumentaram os méritos (!) e lhe serviram para oferecer em reparação das ofensas feitas a Nosso Senhor e em expiação pelos pecadores!
Além do mais, busquemos também nos sacramentos, claro, sobretudo na confissão e no altar da Santa Missa, ao Deus qui laetificat juventutem meam (que alegra a minha juventude)!
3 – Desfrutar mais demoradamente das pequenas alegrias
É consolador ouvir belas peças de música sacra ou mesmo a música secular e popular sadia, apreciar um jantar mais caprichado, às vezes um prato mais refinado, degustar uma bebida diferente, sair e caminhar sem pressa pelas ruas de um bairro bonito, apreciando os jardins, os pássaros, os canteiros. Favorece o espírito parar e sentar-se numa praça, num parque ou outro lugar aprazível, de preferência diante de uma árvore florida (em Curitiba, tenho apreciado muito os ipês roxos do Rebouças) ou algo assim belo, deixando que aquela beleza nos agrade e remeta às muitas expressões da beleza amorosa de Deus na minha vida, àquelas coisas belas e incontáveis momentos agradáveis que Ele já me proporcionou desde que nasci!
Importa também ficar um bom tempo ao sol nos horários mais apropriados (sei que o tempo de Curitiba nem sempre ajuda, mas devemos aproveitar bastante o sol nos dias em que ele aparece), sentindo o seu calor sobre a pele e pensando no bem que a luz solar nos faz.
As maravilhas do amor d’Ele estão a sorrir para nós em toda parte!
São sinais de esperança para todo aquele que crê!
…
Também são muito conhecidos os 5 remédios que o doutor angélico São Tomás de Aquino propõe para combater a tristeza que às vezes acomete a alma humana. De certa forma, alguns deles coincidem com as nossas dicas em certos aspectos, mas vale a pena também elencá-los aqui:
- Conceder-se algum prazer sensível, desde que lícito. (Uma boa cerveja ou um chocolate, por exemplo.)
- Chorar. (Permitir que aquela angústia que nos está fazendo mal seja exteriorizada pelas lágrimas.)
- Abrir-se com um amigo. (Procurar um amigo para desabafar e receber a sua compaixão pode ajudar muito.)
- Contemplar a verdade. (Deixar-se encantar pela beleza de uma paisagem, de uma flor, de um pássaro ou de outras criaturas, e elevar-se às verdades luminosas que elas comunicam sobre o seu Criador.)
- Tomar um banho e dormir. (Aliviar o corpo mediante o banho e sobretudo a mente mediante o sono lhe dará descanso e ajudará a ver as coisas com mais serenidade quando acordar.)
E encerramos este texto com uma propícia oração a Nossa Senhora da Alegria, uma alentadora prece à Bem-aventurada Mãe de Deus que é invocada na ladainha lauretana como causa nostrae laetitiae:
Na calma deste momento,
furtando-me do corre-corre da vida,
eu me recolho em ti.
Senhora da alegria.
Olha a minha audácia:
na singeleza da minha oração,
eu te dou a minha alegria.
Como é bom ser alegre.
Obrigado, Senhora! Foi teu dom.
Como é agradável ter a alma em paz.
Ela é tua também.
Como é maravilhoso ter a alma branda,
ó causa da nossa alegria.
Senhora, nos dias ensolarados
e nas noites entreabertas,
um sorrir sincero indique
a alegria sempre em mim.
Que eu saiba sorrir para ti
em todas as circunstâncias da vida,
nas festas, nas tormentas,
para o meu próximo.
Sorria eu, Senhora,
para aprender, como teu salmista,
a vos servir na alegria.
Que assim seja,
em nome de teu Filho bendito, Nosso Senhor Jesus Cristo.Amém.