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Alguns Eixos do Pensamento da Encíclica “Todos Irmãos” (Fratelli Tutti) – Parte 2

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Por Dom Azcona

A identidade cristã

Com minha graça, esposa amada, tens podido perceber os vazios, as ausências, os silêncios, as omissões sobre assuntos determinantes das “Religiões ao serviço da fraternidade no mundo”. Tens evidenciado ao mesmo tempo, o vazio, a esterilidade, a inoperância das religiões para a criação, desenvolvimento e culminância da fraternidade verdadeira no mundo. O silenciamento da Palavra da vida, Cristo Jesus, o Revelador do Pai, portanto, do Deus a quem todas as religiões querem ter acesso. Daí o grande “descarte”! O descarte do Único que viu o Pai e que o veio a revelar”. Porque ninguém viu ao Pai (Jo 1,18)! Ninguém, tão pouco religião nenhuma! Assim tens evidência por silenciamento também, do “descarte” de ti mesma, minha esposa que és o “sacramento, instrumento ou sinal da íntima comunhão com Deus e da unidade de todo gênero humano (LG 1), da negação prática e o “descarte” da tua missão, da missão da Igreja: anunciar a Jesus como Salvador! Assim como o “descarte” do pecado e, portanto, da tua salvação por Mim do mesmo “Do pecado e do maligno”. (EN 9 e passim).

É necessário voltar consciente e cordialmente aos fundamentos do Credo e segurar-te firmemente neles, porque Eu Sou a Rocha e sobre Mim está edificada a minha Igreja cuja cabeça “visível” é o Papa. Ao mesmo tempo e colocada na última etapa para retornar ao Coração de Jesus de onde te tinhas afastado, necessitas ser queimada em holocausto perfeito e oblação pura oh Igreja! Com o mesmo amor com que Eu me entreguei por ti! Este momento ímpar da história está dolorosa e amorosamente pressionando a uma entrega de oblação sem limites de ti e de Mim, que somos um!

A partir deste pressuposto quero que visites comigo os versículos culminantes deste capítulo e possivelmente da Encíclica: “A identidade cristã” (277-280). Vejamos, amada!

É evidente que aqui a Encíclica se esforça por introduzir a identidade cristã para fugir à acusação da dissolução do específico cristão em filosofia ética iluminista, voluntarismo, ou da eliminação do próprio ser cristão! Por isso, atenta!

A citação sobre a necessidade para o cristão de “não parar de vibrar a música do evangelho…” (277) expressa o que experimenta o coração do cristão. É certo! Porém, é uma proposta, melhor, uma afirmação que nivela o ser cristão exatamente, é uma afirmação ao que pensa ao respeito o budista ou o hinduísta junto com todas as suas veneráveis convicções. É uma opção reducionista do ser cristão, do evangelho, reduzindo-o a convicções subjetivas muito respeitáveis, certamente. Porém, não é uma opção pessoal pelo testemunho do evangelho diante das religiões, nem de Cristo, nem do cristianismo. Com palavra mais ou menos românticas se esconde aqui que “Jesus é o Senhor!” O Único! O insubstituível!

O que se confirma com a frase: “Outros bebem em outras fontes” (Ibid). No caso fonte por fonte, as coisas podem ficar como estão! O reducionismo se abre em plena luz ao considerar o Evangelho de Jesus Cristo exclusivamente como manancial de dignidade e fraternidade (Ibid). Nem aparece a capacidade de aplicar o específico do mistério cristão à dignidade humana e à fraternidade universal! Assim acontece o nivelamento do evangelho, fonte de água viva, à condição de qualquer outra fonte! Tudo isto entristece profundamente o coração do cristão!

Tristemente esse número, completa, culmina, esposa, a utilização reducionista do Evangelho como “fonte” onde brota “para o pensamento cristão e para a ação da Igreja o primado reservado à relação, ao encontro com o mistério sagrado do outro, à comunhão universal com a humanidade inteira, como vocação de todos” (Ibid). Por encima da poesia teológica que possa conter o texto, é necessário esclarecer os termos para que “a verdade te liberte.” Está afirmando a Encíclica que o primado reservado ao Evangelho se refere primordialmente, de modo único até, “à relação com o mistério sagrado do outro…” Na verdade, o mistério sagrado do outro consiste em ser amado pelo Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo “onde se revela o mistério do homem “e sua altíssima vocação “(GS 22). Se este é o mistério e a Encíclica não o proclama, mas o silencia, cómo vai se encontrar com o mistério sagrado do outro”?

A continuação, o número nos fala do “primado reservado à comunhão universal com à humanidade inteira” (Ibid). Não pode existir comunhão universal entre os seres humanos se não se parte daquilo que são: “Todos pecaram e todos necessitam da glória de Deus” (Rom 3,23). A única fraternidade que possibilita a fraternidade universal é a fraternidade no pecado. Se não se parte daqui sempre haverá quem se levante sobre os outros e se proclame justo e mestre. A identidade de um homem e de uma mulher é ser prisioneiro, estar amarrado, ser o próprio grilhão de si mesmo e não poder-se libertar. Sem esta comunhão no pecado, não existe solidariedade, igualdade nem fraternidade!

Por outra parte sem esta “convicção de pecado” convicção unicamente possível pelo Espírito Santo (Jo 16), é impossível ter acesso, à graça de Deus que tudo o nivela em seu amor de Pai para quem Nele crer e por Ele se deixa gerar na Cruz do seu Filho! O resto é agir contra a verdade da fraternidade, contra a realidade, contra o homem, contra a humanidade, e contra Deus! Porque a comunhão do pecado se abre pela graça necessariamente à comunhão da humanidade e com à humanidade. (Ef 2,15).

Assim acontece conosco, com todo homem cristão e com todo ser humano que o deseje: “E são justificados (salvos) gratuitamente pela graça em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus… no seu sangue pela fé” (Rom 3,24-26). Como a redenção é única, único o seu autor, único o destino de todos os homens por ela. No único sangue do Filho de Deus e pela fé é que a humanidade realiza em Cristo unicamente sua vocação altíssima à fraternidade universal, na história, no mundo e na sociedade. Este é o mistério sagrado do outro em sua plenitude! Em Cristo, em Mim, onde habita a plenitude de Deus corporalmente! (Col 2). Mistério ao qual unicamente o homem tem acesso por Mim para que assim aconteça a comunhão universal da humanidade. Esse é o mistério e a vocação do homem e da humanidade, mistério unicamente acessível pela Palavra de Deus encarnada e imolada. (GS 22).

Atenta, oh minha esposa, ao número 278 em que explicitamente se diz que a Igreja católica “pode a partir de sua experiência de graça e pecado compreender a beleza do convite ao amor universal”. Palavras verdadeiras, mas que ficam diluídas de fato no oceano de afirmações tão repetidas e abundantes em torno da fraternidade universal. Se trata de uma gota de água que não molha, não penetra com clareza no mistério do “convite ao amor universal”, não dá alma, nem animação àquilo que a Igreja, tú, esposa, estás chamada a comunicar por graça porque tens acesso à única religião, a esse mistério do amor universal, que é participação do próprio Deus, do Amor!

Essa frase incapaz de impregnação, nem de fermentação da massa ingente de conteúdos e afirmações dos 287 números da Encíclica faz essa afirmação inócua, ao faltar-lhe numa palavra, “o selo específico” com o qual a religião cristã está chamada a marcar essa fraternidade universal. Algo tão imperceptível e tão tímido, por outra parte, como a afirmação da nota 203 do número 214 em letra bem miudinha: “Como cristãos acreditamos também que Deus dá a sua graça para se poder agir como irmãos”. O receio, a timidez são evidentes no fato de não proclamar com clareza e como consequência: “Em nenhuma outra religião se pode agir como irmãos sem a graça de Deus!”. Parece que a Encíclica está pedindo licença para expressar o mínimo das convicções de fé recebida diretamente por Deus através do “Único que viu a Deus e o revelou” (Jo1, 18). Retorna, minha amada, às afirmações consoladoras que do Concílio abre para ti, querida esposa, horizontes luminosos com relação àqueles que pertencem as outras religiões ou sem religião nenhuma e que não são abandonados por Deus nem por Cristo. Mas sempre e unicamente por meio deles, quer dizer, pelo Pai, no Filho e na graça do Espírito Santo!

“Este mesmo Deus tão pouco está longe de outros que em sombras e imagens buscam ao Deus desconhecido porque é Ele quem dá a todos a vida, a inspiração e todas as coisas “(At 7,25-28). E o “Salvador quer que todos os homens sejam salvos” (Tim 2,4.) (LG 16). E o mesmo Concílio no mesmo lugar, por três vezes: “Porque aqueles que sem culpa desconhecem o Evangelho de Cristo e a sua Igreja e buscam com sinceridade a Deus e se esforçam por influxo da sua graça em cumprir com as obras da sua vontade (De Deus) conhecida pelo ditame da consciência, podem conseguir a vida eterna”. Nunca sem a graça divina!

A continuação, esposa amada, o Concílio fecha o círculo desta maneira: “Mas com demasiada frequência, os homens enganados pelo maligno, se fizeram estúpidos nos seus arrazoados e trocaram a verdade de Deus pela mentira servindo à criatura em vez de ao Criador (Rom 1,2 1.25). Ou vivendo e morrendo sem Deus neste mundo, estão expostos ao extremo desespero” (LG 16).

De maneira diferente à Encíclica, o Concílio ardendo de fogo missionário e de amor à humanidade toda, “lembrando o mandamento do Senhor: “Pregai o Evangelho a toda criatura” (Mat 16,16) quer impulsionar todos à obra missionária para promover a glória de Deus e a salvação de toda a humanidade” (Ibid). O apelo à maternidade universal de Maria junto a Cruz claro e oportuno fecha este número!

A Exortação apostólica EN e as religiões não cristãs (53)

Reconhece primeiramente EN o respeito e a estima que merecem as religiões não cristãs, “expressão viva de vastos grupos humanos (Ibid). Ao mesmo tempo que proclama com satisfação e alegria que elas acham-se permeadas de inumeráveis “sementes da Palavra” que podem constituir uma autêntica “preparação evangélica” (Eusébio de Cesareia; LG 16…).

A continuação e profeticamente declara: À luz da tradição cristã e do magistério da Igreja, esta quer proporcionar aos missionários do presente e do futuro (Todos os cristãos) novos horizontes nos seus contatos com as religiões não cristãs. Estes horizontes em resumo, são estes:

  1. Nem o respeito nem a estima para com essas religiões não cristãs, nem a complexidade dos problemas levantados são para a Igreja motivo para calar diante dos não cristãos, o anúncio de Jesus Cristo.
  2. Pelo contrário, a Igreja afirma que essas multidões têm o direito de conhecer as riquezas do mistério de Cristo (Ef 3,8) nas quais a humanidade pode encontrar numa plenitude inimaginável tudo aquilo que ela procura às palpadelas a respeito de Deus, do homem, do seu destino, da sua vida, da morte e da verdade.
  3. Mesmo diante das expressões religiosas naturais mais merecedoras de estima, a Igreja apoia-se sobre o fato de que a religião de Jesus que ela anuncia através da evangelização põe o homem objetivamente em relação com o plano de Deus, com a sua presença viva e com sua ação!
  4. O Evangelho de Cristo leva o homem, assim, a encontrar o mistério da paternidade divina que se debruça sobre a humanidade.
  5. A religião cristã instaura efetivamente uma relação autêntica e viva com Deus, que as outras religiões não conseguem estabelecer, porém elas tenham por assim dizer, seus braços estendidos para o céu.
  6. É por isso, que a Igreja conserva o espírito missionário e deseja mesmo que ele se intensifique neste momento histórico que nos foi dado viver. Ela se sente responsável diante de povos inteiros. Não descansa enquanto não tiver feito o melhor para proclamar a Boa Nova de Jesus.

Agora, poderás perceber, amada esposa, a necessidade absoluta de completar o que o silêncio ou uma falsa tolerância, oculta. Se trata do meu mandamento missionário! Se trata do meu amor que urge, impele e aperta, constrange de modo irreprimível a toda a minha Igreja a anunciar-me! Isto explica o fato de que quem não me ama, não me anuncia: Quem não me conhece, esquece; quem silencia, me nega e renega! Voltai-vos para Mim!

Ao serviço do homem

Para completar e finalizar FT o tema da FT sobre as religiões a serviço da fraternidade no mundo, para interagir de modo mais perfeito, conseguir uma luz mais brilhante sobre a relação, convergências, aspectos divergentes entre a Encíclica e o Vaticano II temos que realizar uma seleção, que não deixa de ser dolorosa de um texto entre outros importantes que marcam o pensamento sobre o qual se articula sobretudo a Gaudium et Spes na compreensão que a Igreja tem sobre si mesma em relação com o mundo e a humanidade. Aqui se encontra a plataforma verdadeira sobre a qual se instala todo o esforço ao qual nos desafia a FT.

Me refiro ao número 3 de GS já bem no início da Constituição pastoral onde se esboça a convicção do sentido e objetivo do serviço da Igreja à humanidade e ao mundo em nosso tempo! Essa mesma é a finalidade principal que se propõe a Encíclica na introdução dos números 1-8 e que será alvo de nossas considerações finais.

O Concílio constata inicialmente a admiração diante das próprias descobertas da humanidade e do poder que ela tem alcançado. Ele chama a atenção sobre os interrogantes angustiosos que o homem levanta sobre a evolução presente do mundo, sobre o lugar e missão do homem no universo, sobre o sentido dos seus esforços individuais e coletivos, sobre o destino último das coisas e do próprio homem (GS 3).

A magna Assembleia conciliar lembra sua condição de testemunha e expositora fiel da fé de todo o povo de Deus congregado por Cristo. (Ibid). Expressa ao mesmo tempo, sua convicção nobilíssima de que não pode dar uma prova maior de solidariedade, de respeito e amor a toda a família humana senão dialogar com ela sobre todos esses problemas e esclarecê-los a todo o mundo!

Dentre as tarefas a realizar, essa venerável Assembleia conciliar destaca “colocar à disposição do gênero humano o poder Salvador que a Igreja, conduzida pelo Espírito Santo tem recebido do seu Fundador! (Ibid). Esposa, é importante não esquecer que esse diálogo com a humanidade tem uma dupla finalidade constitutiva e insubstituível: iluminar esses profundos interrogantes da humanidade e colocar à sua disposição o poder de salvação recebido de Cristo. Se trata da vocação altíssima a que é destinada a humanidade, tema que perpassa todo o Concílio e de modo particular esta Constituição pastoral (Cfr GS 21; 22, passim). Vocação altíssima que consiste na participação da própria vida divina, a única vocação e salvação verdadeiras do homem perdido, escravo do pecado e condenado à morte.

Esposa, aprende e nunca esqueças que a Igreja, tu, existes para salvar a pessoa humana e que toda a humanidade deve ser renovada, regenerada! É o homem, o homem na sua totalidade (Homo unus ac totus), corpo e alma, coração, ciência, inteligência e vontade… Alegra-te, esposa, com a resolução e clareza com que o Concilio vincula a “altíssima vocação do homem”, como já te falei, com a divina semente que em cada homem se oculta e com a fraternidade universal!” No fato de proclamar a Igreja (Na missão) a altíssima vocação do homem, germe divino que nele está depositado, a Igreja oferece ao gênero humano sua sincera colaboração para alcançar a fraternidade universal que responda a essa vocação.

E assim finaliza este número programático: “O Concílio somente deseja uma coisa: continuar, debaixo da guia do Espírito Santo a mesma obra de Cristo. Este veio ao mundo para dar testemunho da verdade, salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido” (Jo 18,37; 3,17; Mt 20, 28…) (Ibid).

Uma leve comparação desta doutrina inspirada, com o propósito do Papa Francisco ao escrever a Encíclica Fratelli Tutti, te ajudará a perfilar a compreensão do que é a missão da Igreja que atua hoje e sempre no mundo, querida esposa!

1.- O Concílio se dedica ao ouvir os interrogantes fundamentais da pessoa humana para tratar de respondê-los pois ela existe para o homem. Se trata, portanto, de uma antropologia, que tem como ponto de partida o próprio homem, a pessoa mesma como sujeito pela sua subjetividade plena: qual o sentido do próprio homem, o sentido dos seus esforços pessoais, o lugar e missão do homem no universo, o destino último do homem e de tudo que existe.

A Encíclica, pelo contrário, não enfrenta como prioridade a pessoa humana. Ela “é uma Encíclica social” a fim de “sermos capazes de reagir com o novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras” (FT 6). As dimensões sociais da Encíclica se estendem à universalidade do mundo e da humanidade toda!

O deslocamento para o social pode trazer consequências metodológicas sérias, como por exemplo, insistências sociológicas, estruturais, mundiais e cósmicas sem aprofundar naquilo que o homem é (Identidade integrada), perdendo assim a sua auto consciência. Como também pode produzir-se o deslizamento para a despersonalização em vista de um projeto comum de toda a humanidade. Portanto, na tendência nefasta ao “pensamento único” global, sem personalização. Numa palavra interessando-se mais pela estrutura a ser criada. Do que pelo homem e o seu criador deixando assim de lado a pessoa que a constitui e que gera a universalidade da humanidade e do planeta.

2- A Encíclica deixa de lado “a doutrina sobre o amor fraterno”, mas prioriza sobretudo a sua dimensão universal, a sua abertura. Assim, a Encíclica, deixa de lado como descartável o discernimento espiritual, quer dizer, evangélico, desde o Espírito Santo daquilo que é amor. Esta ausência metodológica é grave. Porque a negativa proposital a definir de alguma maneira o que é o amor, acaba com todo o arcabouço que se queira construir sobre a Encíclica.

“Deus é amor e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele ” (1Jo 4,16). Estas palavras exprimem com singular clareza o centro da fé cristã: A imagem cristã de Deus e também portanto, a consequente imagem do homem e do seu caminho (DCE 1). Ao deixar de lado o amor, o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, sua Santidade se propõe uma aventura sem sentido. Não se pode dar por suposto aquilo que no seu silenciamento permanente, não se proclama. O amor é Deus! E o único Deus é o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo! Sem cristologia não existe soteriologia: (Tratado da salvação). Não existe, portanto, teologia. Assim como sem soteriologia não existe antropologia. Atenção, cuidado, esposa amada!

Pelo contrário, o Concílio entende o homem como agraciado, amado por Deus, chamado antes de tudo e de qualquer fraternidade universal, à “vocação altíssima que consiste na participação da própria vida divina” (GS 21,22…). Está é a única vocação e salvação do homem, (E portanto, da sociedade) do homem perdido, escravo do pecado e condenado à morte! O homem criado pelo amor e para o amor de Deus a ele (FC).

3.- A fé cristã e a Encíclica: O Papa declara que “embora tenho escrito a partir das minhas convicções cristãs, que me animam e nutrem, procurei fazê-lo de tal maneira que a reflexão se abra ao diálogo com todas as pessoas de boa vontade” (Fratelli Tutti 6).

Como não existe amor cristão sem fé, aqui encontramos uma luz clara para perceber onde se encontra a última raiz desta omissão e opção para não tratar sequer de apresentar o amor cristão na sua identidade básica. É possível que metodologicamente a Encíclica tenha-se visto forçada a este silenciamento sobre o amor cristão, o único amor que existe, o divino no homem e na criação. Dilema fatal! O Papa fez uma opção mortal, se não tivesse feito, não tivesse nascido a Encíclica como esta! Tivesse sido difícil, impossível, lançar as bases para conceitos como fraternidade universal, amizade social, amor (Caridade) político, diálogo com as religiões sem ter em conta de fato o específico cristão. Do contrário como o faz a Encíclica. Quer dizer, uma Encíclica como FT apresentada, teria sido impossível de ser realizada. Se se tivesse apresentado de modo básica o que é o amor, e por tanto a fé cristã, as bases para uma fraternidade universal e um verdadeiro amor social estariam felizmente lançadas. Como a Encíclica se apresenta, não!

Apesar da certeza do Papa da sua convicção de que escreve a Encíclica desde as “suas convicções” de pessoa cristã, de fato, nega esse cristianismo das suas convicções ao negar pelo silêncio, pelo sequestro de realidades como pecado, redenção, expiação, fé no amor (1 João; Jo 3,16), o homem novo, reconciliação com Deus em Cristo e com os homens…

Em páginas anteriores, temos visto com meridiana clareza que a identidade cristã da Encíclica especificamente ao tratar das religiões ao serviço da fraternidade no mundo, números (277-280), não existe de fato nos textos da mesma, apesar de todas as declarações em contrário.

Para o Concílio, no entanto, “testemunha e expositor fiel da fé de todo povo de Deus congregado por Cristo, não pode se dar uma prova maior de solidariedade, respeito e amor a toda a família humana senão dialogar com ela, esclarecer a todo mundo e responder aos interrogantes mais angustiosos que à humanidade se apresentam e sobretudo, colocar à disposição do gênero humano o poder Salvador que ela, conduzida pelo Espírito Santo tem recebido do seu Fundador (GS 3).

4.- Fé e amor (Caridade). Ouve, amada, esta mensagem transcendental que agora te quero comunicar e que marca com toda a nitidez a diferença entre o Vaticano II e a Encíclica FT!

Pelo que estamos explicando, terás compreendido que onde existe a fé haverá obras, a obra da caridade! Necessariamente! Porque, esposa querida, ninguém pode amar pelo próprio esforço, desejo ou capacidade! Se ama se se é amado! Do contrário, o amor é impossível! Ninguém pode dar o Amor a si mesmo!

Ninguém pode ser irmão do outro porque assim o decida Ele. Essa é a impressão que se recebe da leitura da Encíclica: Todos irmãos de todos! Nem tão pouco se o desejar ardorosamente ou com um projeto bem refletido e programado. Porque precisamente tudo isso seria fazer depender o milagre, a maravilha da fraternidade do sangue e da carne! E esta não serve para nada! “O espírito é que vivifica, a carne não serve para nada! As palavras que vos disse são espírito e vida!” (Jo 6,63). “O que nasceu da carne é carne e o que nasceu do Espírito é espírito.” (Jo 3,6 etc…)

Falar e agir de modo diferente, é negar que a graça da fraternidade unicamente é possível a partir da liberdade absoluta de Deus, liberdade que Deus possibilita e comunica ao homem como consequência da fé. Quer dizer, de crer que Ele é Pai e que seu Filho é Esposo da Igreja e nela da humanidade e de cada homem! É verdade, sim, que todos vós sois irmãos porque vós fostes criados pelo mesmo e único Deus! Mas esta fraternidade não tem poder para fazer de vós, verdadeiramente irmãos segundo o Espírito Santo (“Em Espírito e em verdade”). Serieis irmãos como consequência criadora de Deus meu Pai. Mas serieis irmãos “sem permitir” ao homem ou a mulher a liberdade de aderir livremente à fé e por tanto, à caridade, raiz única de toda fraternidade!

5.- Terminando, a missão específica da TF fica completamente bloqueado na proposta metodológica e de reflexão do Santo Padre nos textos da mesma. Esta se tem convertido numa cátedra do “bem viver” segundo a natureza humana dos estoicos, de algumas etnias indígenas ou segundo o racionalismo kantiano, ou como programa humanista da mais vasta expansão possível… Nunca anúncio do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo! Nem portanto, diálogo salvífico! Eis um teste dos limites intransponíveis da natureza humana e das possibilidades mais preclaras do ser humano.

Pelo contrário, na proposta do Concílio, a missão se faz por si mesma impelente, desafiadora, arriscada e provocadora como a “Verdade que vos fará livres”. Livres para servir à humanidade na construção realista da fraternidade universal a partir da experiência de Pentecostes e fugindo de uma vez do sonho da torre de Babel…!

Conclusão

Demos graças a Deus, queridos irmãos e irmãs em retorno ao Coração do qual nos tínhamos afastado e aproximemo-nos da luz penetrante que procede do alto, da Palavra de Deus e da Doutrina da Igreja iluminando nossas mentes e dando-nos a todos a esperança e a alegria até nas nossas grandes tribulações.

Pela graça de Deus temos tido oportunidade de retornar à nossa identidade cristã, inconfundível! A dimensão missionária do nosso coração se tem sentido avivada, animada, enardecida ao olhar com compaixão e respeito as Religiões todas desde a luz da Cruz e da ressurreição de Jesus.

A alegria conciliar está tomando conta de novo das nossas almas ao ver-mos a convergência e comunhão de fé com o Concílio e assim com a possibilidade de completar de modo decisivo os ensinamentos da FT. A descrição conciliar da Igreja definindo a sua missão como “serviço ao homem” entendido de modo integral e não mutilado, está perfilando cada vez com mais clareza o sentido, conteúdos e objetivos tanto da Fé cristã como da FT.

Demos todos graças a Deus incessantemente e continuemos a nossa caminhada de retorno ao Coração de Jesus do qual nos temos afastado junto com outros muitos dentro da Igreja!

Soure, 08 de março de 2021

Com minha benção episcopal!
+ José Luis Azcona Hermoso

BIBLIOGRAFIA
FT- Fratelli Tutti (2020)
LG- Lumen Gentium. Constituição dogmática sobre a Igreja. (Concílio)
GS- Gaudium et Spes. Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo (Concílio)
SRS- Sollicitudo rei socialis. S. João Paulo II (1987)
RP- Reconciliatio et Poenitentia (S. João Paulo II) (1984)
PP- Populorum Progressio (S. Paulo VI) (1967)
CIV- Caritas in veritate (Bento XVI) (2009)
CA- Centessimus annus. (S. João Paulo II) (1991)
RM- Redemptoris missio. (S. João Paulo II) (1990)
EN- Evangelii nuntiandi (S. Paulo VI) (1975)
DCE- Deus Caritas est (Bento XVI) (2005)
FC- Familiaris Consortio (S. João Paulo II) (1981)

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