Desde o século XVIII, com o relativismo liberal, as palavras parecem mudar de sentido de acordo com quem a pronuncia. É o caso da confusão entre a Caridade e da filantropia. Essas duas palavras, embora materialmente possa parecer semelhante, estão tão distantes como o céu e o inferno, uma vez que devemos compreender as diferenças e as motivações que levam às duas. Esse pequeno artigo tem como objetivo esclarecer quais são essas diferenças.
A Caridade, do latim, caritas é uma virtude teologal, ou seja, uma virtude que tem ligação direta com Deus. O apóstolo São Paulo, em sua I carta aos Coríntios (I Cor XIII) canta o verdadeiro hino da caridade. Nele, pode-se notar que a Verdade infusa nos aproxima de Deus, uma vez que a graça opera para que nos unamos ao Nosso Senhor Jesus Cristo. É, portanto, uma ação cujo fim é o Sumo Bem. O Catecismo da Santa Madre Igreja ensina, dos parágrafos 1822 até 1829 o que é e quais são os frutos da caridade.
A caridade, obrigatoriamente, caminha na Verdade e esta foi revelada em Nosso Senhor Jesus Cristo que disse: “Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Permanecei no meu amor (Jo XV, 9). Como fruto do Espírito e da plenitude da lei, a caridade guarda os mandamentos de Deus e de seu Cristo e, portanto, é a mais excelsa de todas as virtudes, uma vez que é por meio dela que nos unimos a Deus e, consequentemente, alcançamos a Santidade.
A virtude da caridade, portanto, está vinculada por dois aspectos importantes. O primeiro deles é a elevação do amor do homem, ou seja, ensina o ser humano a amar de forma sobrenatural (para além de sua natureza). Nesse sentido, nota-se que a Caridade obriga amarmos os nossos inimigos e as pessoas que nos trazem injúrias, pois Nosso Senhor Jesus Cristo passou pelo mesmo em sua Paixão. É o objetivo maior de todo o cristão. Como consequência, a prática da Caridade gera frutos como a alegria, a paz, a misericórdia, exigindo, portanto, a correção fraterna.
É importante frisar que, por se tratar de uma virtude teologal e, portanto, infusa por Deus em nossas almas, ela exige, para bem praticá-la que estejamos em Estado de Graça, ou seja, em amizade com Deus. Sem isso, qualquer boa obra não será caridade, uma vez que a alma não está vinculada ao Nosso Senhor Jesus Cristo e, por essa razão, não se tem como amar a Deus e nem ao próximo. Para que a Caridade seja recuperada, torna-se imprescindível a confissão.
A filantropia, do grego filantrophos, é definida como o amor pela fraternidade humana. Nesse sentido, percebe-se que o objeto do amor, diferentemente da Caridade, não é Deus e o próximo, mas, sim, a “humanidade”. A filantropia era típica de sociedades pagãs anteriores ao cristianismo, uma vez que o objeto a ser amado não era conhecido e, portanto, não havia a preocupação com a Santidade e a virtude. Durante a idade média, o termo foi suprimido, já que a Caridade Cristã tornou-se o objetivo de toda a Civilização Ocidental.
Com o Renascimento, no século XIV, alguns pensadores passaram a resgatar algumas ideias dos pagãos da Idade Antiga e, consequentemente, a filantropia voltou ao vocabulário, ainda que de forma incipiente. A partir do século XVI, no entanto, com a Revolução Protestante, a caridade cristã foi deixada de lado, uma vez que o fruto dessa revolução foi deixar a centralidade do indivíduo na religião. A partir desse momento, cresce o ímpeto utilitarista e, desaguará, no final do século XVII, na filosofia liberal.
Na Grã Bretanha e nos Estados Unidos da América, países nos quais a filosofia liberal penetrou com maior intensidade, notou-se o crescimento de instituições que praticavam ações cujo objetivo era “amar a humanidade”. O objetivo, aqui, não era realizar boas obras e elevar o amor para a perfeição, mas, sim, contribuir para o engrandecimento da humanidade de forma abstrata. A preocupação dos filantropos que se constituíram em verdadeiros profissionais da filantropia, era um problema social e não levar à uma vida na Graça
Pode-se concluir, nesse pequeno opúsculo, que a Caridade e a Filantropia são muito diferentes. Enquanto aquela deseja caminhar na Verdade, na Graça e na Perfeição, mostrando frutos e elevando a natureza humana para amar de forma sobrenatural; esta enfatiza a humanidade como um valor abstrato em si mesmo, não havendo o compromisso com o amor a Deus e, por essa razão, não se importa com o fim último do homem que é o Sumo Bem.