O mundo inteiro ficou em polvorosa quando foi anunciado o lançamento de um livro, escrito a quatro mãos por Cardeal Sarah e do Papa Emérito Bento XVI, em defesa do celibato. Não tanto pelo assunto quanto pelo peso da autoridade de Bento XVI, logo a obra entrou em xeque em relação à autoria. Polêmicas à parte, não resta dúvida de que foi de fato um livro a quatro mãos, conforme provado pelo Cardeal Sarah, bem como a recusa das editoras de retirar o nome de Bento XVI da coautoria.
Não seria de se estranhar que tal livro vazasse e foi isso o que aconteceu. De posse do livro, uma alma traduziu a primeira parte do mesmo para o português. Abaixo iremos colocar a introdução da obra, que foi assinada por Bento XVI e Cardeal Sarah. No mais, aguardemos a publicação desta obra para o português.
Por que tens medo?
Introdução dos Autores
Em uma famosa carta endereçada ao bispo donatista Massimino, Santo Agostinho anuncia o propósito de publicar a correspondência trocada entre eles. “Que poderei fazer, irmão – pergunta -, se não ler ao povo católico as nossas cartas […], para que possa servir-lhes de instrução?” . Assim, decidimos seguir o exemplo do Bispo de Hipona.
Nos encontramos nesses últimos meses, enquanto o mundo retumbava os rumores provocados por um estranho sínodo da mídia que havia superado o Sínodo real. Nos confidenciamos nossas ideias e nossas preocupações. Temos rezado e meditado em silêncio. Todos os nossos encontros nos confortaram e pacificaram reciprocamente. Desenvolvidas por meio de sentidos diferentes, as nossas reflexões nos portaram, então, a trocarmos algumas cartas. A proximidade das nossas preocupações e a convergências das nossas conclusões fizeram-nos com que, como Santo Agostinho, tomássemos a decisão de pôr à disposição de todos os fiéis o fruto do nosso trabalho e da nossa amizade espiritual.
Nós também, como ele, devemos dizer: “Não posso me calar. Sei o quanto me seria pernicioso o silêncio. Não penso, assim, passar o tempo em encargos eclesiásticos satisfazendo a minha vaidade, penso, de outra forma, que quanto às ovelhas que me são confiadas darei contas ao príncipe de todos os Pastores”.
Enquanto bispos, trazemos conosco a solicitude quanto a todas as Igrejas. Com um grande desejo de paz e unidade, oferecemos a todos os nossos irmãos bispos, sacerdotes e fiéis leigos de todo o mundo o fruto dos nossos colóquios.
Fazemos com espírito de amor pela unicidade da Igreja. Se a ideologia divide, a Verdade une os corações. Tratar da doutrina da salvação não pode ser outra coisa que unir a Igreja em torno do Divino Mestre.
Fazemos com espírito de caridade. Nos parece útil e necessário publicar este trabalho em um momento no qual os ânimos precisam ser aplacados. A busca pela Verdade não pode se realizar senão com o coração aberto.
Apresentamos, então, fraternalmente estas reflexões ao povo de Deus e, naturalmente, com filial obediência ao Papa Francisco.
Nós pensamos especialmente nos sacerdotes. O nosso coração sacerdotal quis confortá-los e encorajá-los. Junto a todos os sacerdotes nós rezamos: Senhor, salvai- nos! Nós perecemos! O Senhor dorme enquanto a tempestade cai sobre nós. Parece abandonar-nos nas ondas da dúvida e do erro. Somos tentados a nos render ao desespero. As ondas do relativismo fazem submergir de todos os lados o navio da Igreja. Os Apóstolos tiveram medo. A sua fé balançou. Mesmo a Igreja às vezes parece vacilar. No centro da tempestade a confiança dos Apóstolos no poder de Jesus parece diminuir. Vivemos também nós este mistério. Sentimos, todavia, encontrarmos uma paz profunda, porque sabemos que aquele que pilota o navio é Jesus. Estamos conscientes que esse navio, que é a Igreja, jamais naufragará, que ele e apenas ele poderá nos conduzir ao porto da salvação eterna.
Sabemos que Jesus está aqui, conosco, no navio. A ele queremos renovar nossa confiança, nossa fidelidade absoluta, plena e indivisível. A Ele queremos repetir o grande “sim” que pronunciamos no dia da nossa ordenação. É esse “sim” total que o nosso celibato sacerdotal nos faz viver todos os dias. O nosso celibato é uma proclamação de fé. É um testemunho, porque nos faz entrar em uma vida que não tem sentido senão a partir de Deus. O nosso celibato é o testemunho, ou seja, o martírio. A palavra grega exprime ambas as acepções. Na tempestade, nós sacerdotes, devemos reafirmar que estamos prontos a perder a vida por Cristo. Este testemunho oferecemos dia após dia em razão do celibato no qual dedicamos a vida.
Jesus dorme no navio. E se a hesitação vencer, se temos medo de repousar n’Ele a nossa confiança, se o celibato nos faz recuar, busquemos escutar a Sua advertência: “Por que tens medo, homens de pouca fé?” (Mt 8,26)
Bento XVI
Cardeal Sarah
Cidade do Vaticano, setembro de 2019.