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O Caminho da Perdição e os sinais que o acompanham

Caminho de perdição

A Igreja não crê, como os calvinistas, que Deus predestina as pessoas ao inferno. Isso corresponderia dizer que Deus criou uma criatura sem propósito. Contudo, é bem certo que Deus reprova, isto é, que nem sempre renova as suas graças para o pecador.

Variados exemplos podem ser extraídos das Escrituras de homens que rejeitaram a graça ou que Deus não as forneceu mais. Os casos vão desde homens maus que nunca se retrataram da sua maldade, como Faraó do Egito, Balaão e Jezabel, até homens bons que se tornaram maus, como o Rei Saul e Judas Iscariotes.

Grandes santos já decifraram em inúmeras obras de espiritualidade o itinerário para tornar-se santo, mas perguntemos: Existiria um itinerário para tornar-se réprobo?

Segundo as Sagradas Escrituras, a impenitência final é um caminho amplo (Mt 7,13-14), ou seja, é um caminho, um itinerário. Este caminho, segundo os teólogos, apresenta diversos sinais que preparam a impenitência final.

Pois bem. Elencaremos assim alguns sinais que formarão aquilo que consistentemente chamaremos de “O Caminho da Perdição”

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1. Acídia

Se a primeira etapa para tornar-se um santo é o vívido desejo de perfeição, o primeiro passo para tornar-se um réprobo é a tristeza em relação aos bens espirituais.

A acídia provoca a fuga dos bens espirituais enquanto fins e dos meios que levam a eles, desencadeando os seguintes vícios:

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a) Desespero: Fuga dos próprios bens espirituais. Muitas vezes desencadeia a depressão. Pode parecer um contrassenso, mas quando a depressão tem como raiz a acídia, fazer penitência, por exemplo, pode curar a depressão.

b) Pusilanimidade: Fuga dos bens árduos e que requerem deliberação. A pusilanimidade também é chamada de mediocridade na vida espiritual. O pusilânime tem horror a elevar o padrão de perfeição e generosidade. Será um católico morno, frívolo.

c) Torpor: Fuga dos preceitos que ordenam os bens espirituais. O torpor quase sempre leva à laxidão da consciência.

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A fuga desses bens leva à luta contra eles:

a) Malícia: Não só há fuga como se detesta os bens espirituais;

b) Rancor: Se detesta os meios ou as pessoas que levam a esses bens;

c) Divagação da mente: Quando há dissipação do espírito em várias “coisinhas” ao invés de Deus.

c.1) Curiosidade (no conhecimento): Vício que se opõe à estudiosidade. Na vida, o que cumpre obrigatoriamente ao homem saber:

i) as coisas necessárias para a salvação;
ii) as coisas necessárias para cumprir os deveres de estado.

A curiosidade dissipa o espírito em conhecimentos que não aproveitarão a nenhum dos dois. O indivíduo, por sua própria culpa, facilmente cai em pecados mortais, porque negligencia o conhecimento necessário para evitá-los.

c.2) Verbosidade (no falar): É a repulsa ao silêncio interior e ao recolhimento. A pessoa verbosa preenche o silêncio com conversas, músicas, filmes, celular. É extremamente árduo para ela o silêncio contemplativo.

c.3) Inquietude: É o desequilíbrio emocional. A pessoa não consegue se manter sob controle nas adversidades.

c.4) Instabilidade: Inconstância de propósitos e objetivos. A pessoa vagueia, mas não tem, em suma, um sentido da vida.

No inferno, a lembrança dos bens espirituais desprezados, será um especial tormento para os acidiosos, como ensina Santo Tomás:

Os condenados considerarão aquelas coisas que anteriormente conheceram como matéria de tristeza, como causa de deleite; porque considerarão os males que fizeram, pelos quais foram condenados, e os bens deleitáveis que perderam, e tudo isto os atormentará (S. Th. Supl. art. q. 98, a.7)

2. A Laxidão da Consciência

O torpor, filho da acídia, conduz à laxidão da consciência.

Uma consciência laxa “é aquela que, sob pretextos fúteis ou razões totalmente insuficientes, considera lícito aquilo que é ilícito, ou leve aquilo que é grave” (Royo Marín, Teologia moral para leigos, n.175).

A laxidão da consciência é uma consequência necessária da acídia. Isto fica ainda mais claro quando observamos os efeitos do laxismo, nos quais fica manifesto um estilo de vida cada vez mais mundanizado e disperso. Eis alguns:

  • a) uma vida indolente e sensual, que embota a sensibilidade da alma;
  • b) o descuido da oração mental e falta absoluta de reflexão;
  • c) A excessiva solicitude pelas coisas mundanas e terrenas (espetáculos, diversões, negócios, etc.);
  • d) O costume de pecar, que vai diminuindo o horror ao pecado;
  • e) O ambiente frívolo e o trato com pessoas superficiais e levianas;
  • f) A luxúria, sobretudo que entenebrece a clareza do juízo (Ibidem, n. 177).

Segundo Royo Marín, a consciência laxa é uma das mais difíceis de curar, porque a pessoa laxista trata todas as coisas com superficialidade e não se dá conta do gravíssimo perigo de condenação que se encontra.

De acordo com Zalba (Theologia Moralis Compendium, vol. I, p. 409), a laxidão de consciência ainda produz dureza de coração, ou seja, a obstinação. E assim a laxidão de consciência, já aqui na Terra, vai acostumando o indivíduo ao seu futuro estado de réprobo, isto é, à imutabilidade no mal.

3. Tibieza

A tibieza, segundo Mons. Ascânio Brandão, é o hábito do pecado venial plenamente voluntário. Pe. Desurmont ainda define como sendo o “hábito não combatido do pecado venial, ainda que seja um só” (La fidelité à Jésus Christ).

Segundo Mons. Brandão, os principais sinais da tibieza são:

a) Fácil omissão das práticas de piedade: sob qualquer pretexto, o tíbio omite seus exercícios espirituais. Passa dias sem rezar, sem meditar ou sem qualquer outro exercício de piedade.

b) Fazer os exercícios de piedade com negligência: reza com inúmeras distrações ou com muita má vontade, as confissões e comunhão são mal preparadas. Não há generosidade e nem ideal de perfeição.

c) Aborrecimento interior: aos poucos a alma tíbia se sente desconfortável com Deus, com as coisas santas e acha que sua vida espiritual vai de mal a pior (e vai mesmo). Este sentimento é o resultado do abandono do fervor e da luta pelos bens espirituais, principalmente os mais árduos.

d) Ausência de pureza de intenção: o tíbio faz tudo por amor de si mesmo. Inventa sempre novas desculpas para ceder à própria vaidade.

e) Mediocridade e negligência: o tíbio não gosta da palavra “santidade” no seu sentido forte, isto é, generosidade, sacrifícios e heroicidade de virtudes. Ele reduz a santidade a um conceito levíssimo, que mal pode ser distinguido da sua própria tibieza.

f) Desprezo das pequenas coisas: Enquanto os santos fugiam das menores imperfeições, uma vez que cultivavam uma consciência delicada, o tíbio, diz, Mons. Brandão, “ri-se do que ele chama escrúpulo das almas fervorosas: a fidelidade nas pequenas coisas“. O tíbio costumeiramente chama as almas que buscam a perfeição de “escrupulosas”, vendo nelas sempre um “exagero” no modo como buscam a santidade.

g) Presunção: o tíbio julga que já fez o suficiente para a salvação. Porque no passado foi fervorosa, a alma tíbia agora quer “férias”, isto é, um repouso que a faça descansar de sacrifícios e de um novo heroísmo na fé.

h) Pecado venial habitual e voluntário: a alma tíbia cai reiteradamente neles e não consegue avançar, mas também não se importa. Falta ao tíbio a percepção os pecados veniais atraem grandes castigos já para esta vida. Vejamos alguns exemplos:

  • A mulher de Lot foi transformada em estátua de sal por um pecado venial da curiosidade (Gn 19,26), e
  • Moisés foi privado da visão da terra prometida por pecar venialmente contra a confiança em Deus (Nm 20,12).

A tibieza é seguida ainda dos seguintes efeitos:

a) Enfraquecimento da alma: afasta a alma da graça, fortalece seus inimigos e dispõe o coração para a malícia.

b) Prepara o caminho para o pecado mortal: O tíbio faz pouco caso do pecados veniais e assim, frequentemente, cai nos pecados mortais.

c) Prepara a impenitência final: A resistência à graça para superar pecados veniais funciona para o tíbio como uma área movediça. A cada vez que resiste, mais se afunda, precipitando-se, por fim, no abismo.

A alma tíbia, porque cai reiteradamente nos pecados veniais, também deixa-se influenciar bastante pelo defeito dominante. Esquece-se, porém, que, na hora da morte, poderá ser assaltada pelos demônios com inúmeras tentações do seu defeito dominante. O orgulhoso pode ser tentado a não reconhecer seus pecados, o luxurioso pode ser perseguido com diversos pensamentos de luxúria, o colérico (irado) pode ter pensamentos de revolta contra Deus, etc. Por isso é importante a mortificação e o combate à tibieza durante a vida, para que na morte o amor a Deus seja tal que esses assaltos do demônio não logrem efeito.

Conclusão: a tibieza é a simbiose da acídia com a laxidão de consciência, o que resulta em uma alma que não consegue se libertar do pecado. A falta de libertação do pecado é certo espelho da reprovação futura, visto que os réprobos, no inferno, continuarão a pecar.

4. Obstinação

A obstinação no pecado talvez seja o sinal mais latente de reprovação divina. Os obstinados já não tiram proveito dos conselhos, dos sermões e são resistências às advertências dos bons amigos e das pessoas que lhes querem bem. Amam o seu pecado ou o estilo de vida que levam rechaçando todas as intervenções da graça.

A obstinação admite múltiplas causas. Como diz Nosso Senhor, o caminho da perdição é largo. Segundo R. Garrigou-Lagrange em “O Homem e a Eternidade”, há três grandes espécies de obstinação:

a) Obstinação por ignorância culposa: A pessoa é adormecida ou sonolenta para o conhecimento dos seus deveres indispensáveis à salvação. Isso a faz cair no pecado mortal e na cegueira da mente. Assim ela se afunda na iniquidade e bebe dela como se fosse água.

b) Obstinação por covardia: O indivíduo não tem energia para romper com os laços de pecado. Pode até enxergar o porto da salvação, mas simplesmente permanece como está pela dificuldade de sair

c) Obstinação por malícia: Pessoas que por alguma infelicidade, infortúnio da vida ou qualquer outro motivo se revoltam contra Deus e contra a religião cristã.

A obstinação é um quadro realmente difícil de reverter. A conversão in extremis é rara, porque, em regra, a pessoa morre tal como viveu. As pessoas que conseguiram essa conversão, geralmente, são aquelas que, apesar da obstinação, ainda não tinham rompido totalmente seus laços com Deus ou que receberam a graça mediante a oração dos outros.

No inferno, o flagelo especial dos obstinados será a inveja terrível que terão da felicidade dos santos. Como a sua vontade estará imobilizada no mal, o ódio dos condenados será perfeito. Desejarão que todos sejam condenados, porque a visão do bem que obstinadamente perderam lhes afligirá muitíssimo.

O remédio para a obstinação é a prevenção, pois é dificílimo salvar-se ou perceber a obstinação quando se é obstinado. Rezar todos os dias pedindo a Deus a graça da conversão e da penitência final é uma medicina salutar para não cair neste estado.

Conclusão

O caminho da perdição é largo e são muitos que entram nele. São múltiplas as formas de perder-se eternamente. Porém, a acídia, a tibieza, a laxidão de consciência e a obstinação apresentam sinais equivalentes, formando uma rede de retroalimentação.

Para não entrar nessa rede é salutar o desejo sincero de perfeição e de abnegação. A busca pela perfeição deve ser contínua nas mínimas coisas. Renunciar o que precisa ser renunciado por amor a Deus e ter generosidade nos atos de devoção são atitudes que atraem a graça divina.

É preciso também aprender com as próprias faltas. Não se desesperar, mas também não se deixar acomodar pela acídia. É preciso reconhecer a própria miséria e buscar logo a emenda. Um conselho salutar é castigar cada pecado venial cometido com uma mortificação. Fazendo isso a porta larga da perdição, isto é, a acídia, sempre estará fechada.

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