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A situação da Igreja Católica na Itália: Um quadro sombrio com um raio de esperança

Papa Francisco abençoando da janela a praça de São Pedro Vazia
Foto: Reuters
Por Gaetano Masciullo

Nas últimas décadas, os bispos favoreceram o apoio a causas sociais em detrimento de salvaguardar a ortodoxia, remodelando a Igreja de modo a torná-la uma organização humanitária, quase um apêndice da ONU. A atual incapacidade da Igreja de inspirar e guiar as pessoas em direção a um propósito maior está deixando-a vulnerável num contexto de um mundo cada vez mais consumido pela ansiedade e pelo egoísmo.

Enquanto a Igreja italiana se aproxima de sua Assembleia Sinodal, programada para ocorrer no período de 15 a 17 de novembro, um relatório recente do CENSIS (Centro Studi Investimenti Sociali) mostrou dados sombrios sobre o atual estado da fé na Itália. Encomendado pela Conferência Episcopal Italiana, este relatório revela tendências preocupantes dentro da Igreja Católica, pelo menos na da Itália, que ainda é vista por todo mundo como sendo o coração do catolicismo. Os dados revelam uma profunda crise espiritual, refletida nas lutas da Igreja do Papa Bergoglio, principalmente depois de décadas de tentativas de alinhamento com as tendências sociais contemporâneas em detrimento do fortalecimento da sua própria identidade. Na Itália, os desafios da Igreja estão se tornando cada vez mais evidentes.

De acordo com o estudo do CENSIS, que pesquisou uma amostra de 1.000 adultos italianos, 71,1% da população ainda se identifica como católica. No entanto, apenas 15,3% se consideram praticantes, enquanto 20,9% dos que se dizem católicos declaram que são “não praticantes”. Essa estatística revela uma significativa desconexão entre a identidade católica e a prática religiosa, refletindo uma tendência mais ampla da Europa em direção ao que pode ser denominado como um apego cultural, em vez de religioso — e, portanto, autêntico — ao catolicismo.

O relatório do CENSIS também evidencia uma preocupante mudança quanto às expectativas dos católicos praticantes, com 60,8% afirmando que a Igreja deve se adaptar às novas sensibilidades culturais. Por décadas, a liderança católica tem implementado e encorajado mudanças que visam tornar a Igreja mais atraente às sensibilidades modernas, mas tais ajustes não provocaram engajamento genuíno nem resultados promissores ao futuro do próprio catolicismo; na verdade, ocorreu o oposto. Aqueles que hoje permanecem na Igreja geralmente mantêm crenças e expectativas que lembram as piores formas de secularismo, sugerindo que os esforços de modernização levaram a Igreja a abandonar sua identidade missionária.

Curiosamente, cerca de metade daqueles que raramente ou nunca vão à Missa (estamos falando de 55,8% da amostra total) afirmam “viver sua fé internamente” sem sentir nenhuma necessidade de participar de celebrações litúrgicas. De fato, enquanto 66% dos entrevistados relataram que rezam, as razões por trás dessas orações mostram o quão desconectados tais atos estão de uma vida espiritual robusta. Por exemplo, 39,4% rezam sobretudo durante momentos de intensa emoção, enquanto 33,5% rezam por medo ou por busca de conforto durante as dificuldades. Assim, para muitos, a oração se tornou uma resposta utilitarista e perturbadoramente sentimental às dificuldades da vida. Não se trata da respiração da alma, do meio necessário para preservar a graça divina recebida por meio dos sacramentos.

O relatório do CENSIS também mostra que, para muitos, a Igreja não é mais vista como a principal guia espiritual, mater et magistra gentium, senão como uma instituição de caridade — ou mais precisamente, filantrópica — focada principalmente nos necessitados, marginalizados e pobres. O papel doutrinário da Igreja desapareceu da consciência coletiva, diminuiu dentro da própria estrutura da Igreja e por vontade de seus próprios líderes. Nas últimas décadas, os bispos favoreceram o apoio a causas sociais em detrimento da salvaguarda da ortodoxia, remodelando a Igreja, não apenas aos olhos do público, para ser uma organização humanitária, quase um apêndice da ONU.

Para 45,1% dos que deliberadamente se distanciam do catolicismo, a Igreja é vista como uma instituição ultrapassada e obsoleta. Presa entre o secularismo exterior e o modernismo interior, a Igreja parece ter perdido sua voz única, comprometendo assim sua imagem pública e ao mesmo tempo não garantindo a obediência de seus fiéis.

Em sua interpretação dos dados, o presidente do CENSIS, Giuseppe De Rita, reconhece essa crescente desconexão. Ele descreve uma “área cinzenta” dentro da Igreja de hoje, atribuindo essa ambiguidade em parte ao individualismo desenfreado, mas também a uma Igreja que “reluta para apontar para um ‘além'”. De acordo com De Rita, a atual incapacidade da Igreja de inspirar e guiar as pessoas em direção a um propósito maior a deixa vulnerável num mundo cada vez mais consumido pela ansiedade e egoísmo. Enfatizar experiências coletivas, muitas vezes circunscritas em termos políticos, é insuficiente para aqueles que buscam um sentido espiritual profundo. Bem sabemos que o homem foi criado para Deus e que, como escreveu o grande Santo Agostinho, o coração humano ficará inquieto enquanto não repousar no único Deus verdadeiro.

Contudo, há ainda outra estatística no relatório que merece ser destacada. Entre os católicos praticantes, 43,9% apreciam “a beleza dos ritos do passado”. Essa apreciação inclui a Missa Tridentina, ainda desconhecida para muitos (embora mais católicos estejam cientes de sua existência do que no passado), bem como a Missa Novus Ordo celebrada com reverência e não como um espetáculo de baixo nível. Além disso, os católicos expressam nostalgia por muitos ritos tradicionais que — com a cumplicidade dos próprios bispos — parecem quase ter desaparecido da devoção popular, como a procissão de Corpus Christi.

Essas estatísticas, portanto, revelam um problema central: a inclinação da Igreja moderna para preocupações horizontais com foco no social a empobreceu espiritualmente, tornando-a incapaz de responder aos anseios mais profundos do povo de Deus. Este relatório sublinha uma grave deficiência na atual estratégia da Igreja: um fracasso em nutrir e fortalecer a fé, o fundamento verdadeiramente único para qualquer ato autêntico de caridade. Sem fé, a caridade se reduz à filantropia, e a filantropia não dá glória a Deus, ajudando aos outros de forma hipócrita. É meramente um ato de adoração ao ego.

À luz dessas tendências preocupantes e da recente publicação do documento pós-sinodal, pode ser hora de a Igreja reconsiderar seriamente suas prioridades. A iminente Assembleia Sinodal Italiana (mais uma!) não deveria ser só uma ocasião para discutir novas formas de engajamento social ou de ensinamentos teológicos atualizados, mas inapropriados. Em vez disso, poderia representar uma oportunidade de a Igreja refletir profundamente sobre sua própria identidade e missão. Em vez de discussões sinodais intermináveis ​​que frequentemente resultam em erros vergonhosos, a Igreja teria mais benefício se redescobrisse de sua herança espiritual. A reintrodução dos católicos à riqueza das liturgias, doutrinas e devoções tradicionais poderia revitalizar a Igreja italiana (e outras), edificando-a firmemente na Verdade e oferecendo ao povo fiel algo verdadeiramente fértil. Como sempre funcionou ao longo da história, duas coisas atraem as pessoas a Cristo: liturgia e catequese, mas especialmente liturgia.

Talvez até seja irônico, mas não deixa de ser apropriado, notar que uma instituição tão historicamente progressista como o CENSIS confirmou o que muitos católicos tradicionais há muito tempo sentiam: a necessidade de reformar não as estruturas, mas o espírito do católico. Em tempos de convulsão moral e cultural, a Igreja tem um papel vital de guiar a sociedade em direção ao que De Rita chama de “além” — uma visão que transcende o individualismo e as tendências sociais venenosas de hoje. Se a Igreja italiana deseja permanecer relevante, precisará recorrer às suas antigas fontes de fé, oferecendo aos fiéis um caminho que leve não somente a este mundo, mas à eternidade.

Fonte: The Remnant

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