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Proibido proibir no Dicastério para a Doutrina da Fé

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Por Bruno M.

Em um artigo publicado há poucos dias, Alejandro Bermúdez1 afirmava que “o Vaticano abre as portas à mudança de sexo”. Referia-se ao cardeal Victor Manuel Fernández tentar converter em “doutrina” uma “controversa conferência que deu na Alemanha sobre mudança de sexo”.

Infelizmente, o artigo descrevia o que, com efeito, sucedeu. O cardeal Fernández publicou como documento oficial do Dicastério para a Doutrina da Fé uma conferência que pronunciou no país germânico, onde repetia a doutrina da Igreja de que as cirurgias da dita “mudança de sexo” não estão permitidas moralmente, mas, como novidade, introduzia uma exceção: o caso de “fortes disforias que podem levar a uma existência insuportável ou inclusive ao suicídio”. Ou seja, fazer a mudança de sexo é imoral a não se quer que seja muito desejada, muito, muito, muito de verdade. Puro sentimentalismo. Como o fato de alguém desejar muito pecar fizesse que o pecado fosse menos mau ou inclusive bom.

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Este tipo de “exceção” lembra fortemente aquela outra que diz que é mau que um homem durma com uma mulher que não seja sua esposa, exceto se se amarem muito de verdade, ou a ideia de que abortar é mau, exceto se a gravidez impor à mãe um dano psicológico ou muitas outras desculpas igualmente grosseiras. Ver que um Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé se rebaixa ao uso dessas argumentações produz um certo embaraço. O que pensarão tantos bons sacerdotes que passaram a vida explicado ao povo que essas desculpas são só uma triste tentativa de enganar a si mesmo?

A explicação dada pelo próprio cardeal é simples: a “regra geral” da Igreja não exclui a existência de “casos fora da norma”, como os mencionados anteriormente. Esta forma de argumentar não deveria nos causar surpresa, porque provém diretamente de Amoris Laetitia, onde se negou expressamente a existência de atos intrinsecamente maus (isto é, atos que sempre são imorais), contra o ensinamento de São João Paulo II (cf. Veritatis Splendor), de Bento XVI e de toda a moral da Igreja anterior, incluso a Palavra de Deus (cf. por exemplo, os mandamentos da Lei de Deus).

Como todos lembrarão, a negação da existência de atos intrinsecamente maus possibilitou imediatamente a admissão à Comunhão de adúlteros sem propósito de emenda em dioceses de todo o mundo, inclusive a diocese de Roma e o próprio Vaticano. No mesmo sentido, fez que os numerosos bispos que haviam rejeitado publicamente a indissolubilidade do matrimônio durante os Sínodos das Famílias não fossem corrigidos por isso. A mesma argumentação torna entendível que, embora o aborto em princípio seja gravemente imoral, o Papa pudesse elogiar a mais famosa abortista italiana como “uma das grandes da Itália hoje em dia”, desautorizando os bispos que, com toda a razão do mundo, queriam negar a comunhão ao presidente Biden, ao mesmo tempo “católico” e radicalmente abortista. Antes de Amoris Laetitia, teria sido inimaginável que os membros da Pontifícia Academia pela Vida defendessem os grandes erros modernos nesse âmbito, mas agora há membros abortistas ou favoráveis à eutanásia ou aos anticonceptivos, porque não existem atos intrinsecamente maus e às vezes eutanasiar um doente ou abortar um bebê pode ser algo bom e a Vontade de Deus. O mesmo raciocínio pode ser visto em Fiducia Supplicans, o documento vaticano no qual se promove a bênção de casais do mesmo sexo.

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As aplicações locais ou de fato de bispos individuais e do próprio Papa são inumeráveis, mas podemos destacar a última que se tornou pública, já que se refere ao tema que hoje tratamos: Dom Stowe, bispo de Lexington (Kentucky), passou anos apoiando e aprovando as pretensões de uma mulher que, depois de se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo, pretende ser o primeiro eremita transgênero e se dedica a defender a integração de outras pessoas transgênero na vida religiosa. O Papa, por sua vez, recebeu amavelmente a mulher e a uns quantos de seus companheiros, os quais se apresentaram diante do Pontífice como pessoas “transgênero” sem que fossem corrigidas minimamente, e, como era previsível, saíram da audiência mais convencidos que nunca de que a mudança de sexo é algo bom e querido por Deus.

Assim, as aplicações de Amoris Laetitia vão difundido, pouco a pouco, em casos extremos ou em questões agradáveis para o mundo, de forma confusa ou “pastoralmente”, mas inevitavelmente, o gravíssimo erro de que não há atos intrinsecamente maus, o que vai acabando com toda a moral. É a brecha na barragem que, se não for reparada imediatamente, vai causando mais e mais fissura até que a barragem inteira desmorone. Com efeito, aplicado a qualquer pecado, desde o divórcio até as relações do mesmo sexo, mas também ao roubo, ao assassinato, à exploração dos pobres ou à pederastia, obriga a reconhecer que não podemos dizer que isso tudo seja necessariamente mau. Frente aos pecados mais horríveis, a única coisa que a Igreja pode dizer a partir de Amoris Laetitia é “depende”, “talvez seja o que Deus quer” ou “quem sou eu para julgar?”

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Estendeu-se assim entre vários clérigos, teólogos e bispos a ideia de que a lei de Deus, em vez de ser perfeita e repouso da alma, é, na realidade, uma pesada carga da qual devemos nos livrar. Numa curiosa manifestação de neofarisaísmo, a função da Teologia Moral e do Magistério passa ser única e exclusivamente a busca de truques, desculpas e artimanhas para não ter que cumprir as obrigações morais de que não gostam. Como dizia Gómez Dávila, apregoam direitos para poder violar deveres.

Encontramo-nos diante do triunfo da moral adolescente na Igreja, baseada no sentimentalismo desbocado, na ausência de responsabilidade e em slogans tolos como “proibido proibir”, “ninguém pode me dizer o que tenho que fazer” e “meu caso é especial e não me parece ser nada demais”. Ierusalem desolata est. Ou, dizendo em língua vernácula, quão baixo caímos!

Infelizmente, diante desta gravíssima situação de destruição da moral católica, a maioria dos responsáveis por elevar a voz guardam silêncio. Por isso os demais nos vemos na obrigação de falar, com respeito mas também com firmeza, para defender a fé que nos salvou e nos está salvando. Se estes calam, gritarão as pedras.

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Rezemos muito pela Igreja, pelo Papa, pelo cardeal Fernández e por todos os que, tendo a obrigação de falar, preferem ficar em silêncio, para que Deus os ilumine. E confiemos que, apesar de tudo, Cristo continua guiando a sua Igreja e suas palavras não passarão.

Fonte: Espada de doble filo

Nota:

  1. Cabe assinalar que Alejandro Bermúdez, um leigo, foi expulso ano passado da sociedade de vida apostólica a que pertencia por ordem do Vaticano pelo motivo de “abuso no exercício do apostolado do jornalismo”. É de supor que o novo critério de “se o queres muito, então está bem” pode ser aplicado ao divórcio, ao aborto, aos anticoncepcionais ou à mudança de sexo, mas não ao terrível crime de recordar a fé da Igreja àqueles que precisam recordá-la. ↩︎

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