A sociedade contemporânea tornou-se um arcabouço da desordem, em uma completude tal, que já não encontramos estruturas que estejam inabaláveis e que realizem a plena eficácia dos seus fins. Para aquele que tenha um pouco de conhecimento da história da civilização ocidental, é inevitável olhar para esta sociedade e não enxergar a situação caótica em que se encontra atualmente. Via de regra, podemos apontar que todas as estruturas sofrem algum tipo de corrompimento, das mais simples até as mais complexas, como por exemplo, a família e o Estado.
O fim de uma ordem social é dar as plenas condições para que o homem enquanto indivíduo alcance o seu fim natural com maior perfeição. As gerações passadas tinham este entendimento muito claro e explícito em suas instituições temporais. Tudo visava, de alguma maneira, preparar o homem para buscar a salvação de sua alma e, como consequência, alcançar a visão beatífica.
Durante a História sempre ouvimos discursos a plenos pulmões de que a nossa civilização é cristã. No entanto, os fatos indicam que essa afirmação é ilusória. Podem me perguntar como que eu posso afirmar algo tão estranho assim, já que esse discurso parece ser corriqueiro nos vários setores da sociedade no ocidente. O primeiro argumento que apresento é o fato de que há um erro filosófico, o de tomar a parte pelo todo, quando se trata deste assunto. É verídico afirmar de que no ocidente existem cristãos que vivem de fato a fé em sua plena essência, mas isso não anula o fato de que a maioria dos cidadãos ocidentais não são cristãos de fato. É claro que se pegarmos, por exemplo, a nossa nação – Terra de Santa Cruz –, veremos que os índices do IBGE apontam que a maioria dos cidadãos se diz cristã, contudo, se aprofundarmos, veremos que são pessoas que não vivem a fé verdadeira, mas um certo cristianismo feito à sua própria medida. Logo, em essência, podemos afirmar que não são cristãs, pois vivem a religião do homem e não a de Cristo. Nesta lista encontram-se uma boa parte dos que dizem ser “católicos”, protestantes e outras denominações. Na região europeia os dados são muito piores para o cristianismo, a ponto de o ateísmo ser maioria.
O segundo fato que não podemos deixar de relatar é de que o Estado e toda as suas leis não são cristãs, apesar de algumas constituições nacionais citarem a Deus. A própria constituição de nossa nação por exemplo, deixa claro que é laica, e apenas nos dá uma suposta impressão de “liberdade religiosa”. No entanto, na prática, o Estado é um dos maiores opositores do cristianismo, pois, por meio de suas leis, ataca diretamente os princípios católicos e, muitas vezes, incentiva ideologias que contradizem diretamente a fé cristã e a própria natureza humana. O terceiro ponto que não posso de deixar de mencionar é o fato de que se compararmos o ocidente com as civilizações não-cristãs, teremos um susto ainda maior, pois se mostram mínimas as diferenças de pensamento e as formas de ver o homem e a sociedade enquanto organização e fim. Efetivamente, tudo isso nos coloca em estado de alerta!
Analisando os fatos, como levantados e apontados acima, é muito mais acurado afirmar que a civilização ocidental não é cristã e, tomando como base essa verdade, devemos contextualizar qualquer tipo de análise sobre o futuro da civilização ocidental. É notório o caos e a desordem que a sociedade se transformou, o que foi devido à sua própria escolha, porque decidiu afastar-se das raízes pelas quais foi concebida e geminada. Sociedade esta que, durante o período medieval, chegou em seu grande ápice, contendo uma ordem social bem definida, uma cultura esplendorosa e bela, além de uma moral e política muito mais perfeita.
A civilização ocidental já carregou em seu seio milhares e milhares de cristãos que viviam a autenticidade da fé e do evangelho. Com o tempo, porém, devido ao progressismo e o afastamento de Deus, a vida espiritual e as virtudes práticas do cristianismo foram corrompidas, colocando a nossa sociedade no caminho de sua ruína temporal, que traz como consequência a perda de muitas almas. É necessário que enquanto católicos tomemos cuidados para não cair nos desvios que nos afastam da fé e de Cristo. Para este fim, como forma de ajuda, exponho abaixo os quatro desvios mais comuns:
1º Desvio – a Dicotomia de Personalidade – Um dos papeis do cristão neste plano terreno é se preocupar em manter a sua fé viva, forte e atuante em todos os âmbitos de sua vida. Nos nossos tempos, é comum ver cristãos que têm uma vida religiosa de forma privada, mas publicamente se portam como ateus. É muito interessante que muitos desses católicos têm um certo zelo e cuidado com a vida espiritual, inclusive têm práticas muito piedosas como o terço diário, devoções e a participação dominical nas santas missas, no entanto, na primeira necessidade de defender a fé ou expor princípios católicos de forma pública, se portam como pagãos.
No âmbito geral os católicos que tem um juízo formado desta forma, seja de maneira consciente ou inconsciente, estão muito mais voltados ao liberalismo do que para a fé cristã. O liberalismo, que teve sua semente plantada através das ideias revolucionárias, tem em suas raízes o pensamento de que o homem precisa ser relativizado – para não usar o termo laicista – de seus princípios em sua vida pública, embora individualmente possa viver a sua fé tranquilamente. Esse pensamento é totalmente contrário ao evangelho de Cristo, o qual nos exorta a sermos cristãos em todos os momentos de nossa vida. O Cristianismo é uma religião que tem como base os ensinamentos, o Evangelho de seu próprio Fundador. Ao tentar criar um cristianismo à sua medida, o homem deixar de ser cristão em essência, pois de fato, já não é mais a fé em Cristo a base das suas convicções, e sim a sua ideia própria de cristianismo. Logo, essa pessoa já não é mais essencialmente um cristão. O próprio Cristo, conforme o evangelho de São Lucas, nos alerta: “Digo-vos: todo o que me reconhecer diante dos homens também o Filho do Homem o reconhecerá diante dos anjos de Deus; mas quem me negar diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus.”[1]
2º Desvio – Idealismo Espiritual – é muito comum cristãos, em uma atitude de falta de compromisso e de responsabilidades que a sua fé exige, criarem uma espécie de fé que não sai do abstracionismo. A religião cristã não é platônica, muito pelo contrário, é uma fé que nasce no espiritual e desemboca no caráter material. Assim como o corpo precisa de uma alma, o cristianismo precisa de uma vida prática. A vida espiritual precisa ser praticada no mundo temporal.[2] É trabalho do cristão lidar com a matéria, lutar pela justiça e pela propriedade, praticar a caridade, combater a fome, etc.
3º Desvio – O medo da necessária violência – O homem de hoje tem cada vez mais se afastado de sua própria identidade e de sua natureza pré-estabelecida. Os tempos atuais estão tomados de propagandas pacifistas e de uma campanha absurdamente gigante para a desvirilização do homem. Entre os cristãos é normal o crescimento de um pacifismo que podemos até chamar de demoníaco, pois em nome deste, já não se reage mais aos escândalos do mundo. Os cristãos em sua maioria já não se levantam mais contra as pautas anticristãs. Quando surgem pessoas ou grupos católicos que reagem a essas pautas, em vez de estarem juntos apoiando, escandalizam-se e começam a atacar àqueles que simplesmente estão exercendo o papel que se exige do católico.
Não posso deixar de expor que o Próprio Jesus afirmou que “o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam”[3]. Ora, os fariseus não conseguiram calar a voz de Jesus. Nosso Senhor fez o uso da força e da violência para continuar as suas pregações, morreu pela sua fé e missão, e seus ensinamentos são ouvidos até hoje. Contudo, não posso de fazer um alerta: os cristãos de hoje fazem o mesmo trabalho dos fariseus, – calar a voz de Jesus – tornando-se seus cúmplices ao exercer esse “pacatismo” espiritual e sem vitalidade. São essas pessoas laxas que hoje seguram a pedra do sepulcro do Senhor, a fim de impedir que as suas ideias e seu Evangelho ressurjam no meio desta sociedade paganizada.
Os âmbitos sociais atuais já não têm mais o apoio da justiça verdadeira e caridosa, mas sim de uma justiça burocrata onde os poderosos e os ricos fazem sua própria lei. É dever do cristão lutar pela justiça, mas não nos iludamos! A justiça sem a força é só palavras. A justiça só tem a possibilidade de virar realidade quando esta tem o apoio da força, e por trás dela há uma espécie de violência.
Para que não confundam as coisas ou façam conclusões erradas exprimo que a violência católica a que me refiro não é a violência praticada por revolucionários como, por exemplo, Stalin, mas a violência de Cristo, que é forte, lenta e caridosa. Pascal já escrevia que “a justiça sem a força é impotente, a força sem a justiça é tirânica”.
Ao cristão que queira viver verdadeiramente, a fé perfaz a necessidade de colocar a justiça e a força juntas, para assim fazer com que o justo seja forte e o que é forte seja justo. A violência do Evangelho precisa fazer parte do dia a dia do cristão!
4º Desvio – O Espírito da acomodação – Este é um dos maiores problemas dos cristãos de nossa geração, sejam aqueles que tem um entendimento mais profundo da fé ou aqueles que conhecem a fé de maneira mais superficial. Podemos dizer que vivemos na época em que as pessoas são dominadas pela acídia e pelo descomprometimento. Os católicos já não têm mais interesse em fazer parte de movimentos, encontros para rezas de terços, círculos bíblicos, grupos de formações de estudo da fé e busca de uma vida intelectual. Como consequência, as pessoas de vida mundana estão tomando conta da sociedade e paganizando-a cada vez mais.
É assustador ver como o cristão tem medo de sofrer qualquer tipo de golpe da sociedade pagã. Os homens têm se tornado cada vez mais apaziguados, com medo da agitação e do comprometimento. Enquanto isso, as agendas anticatólicas avançam – isso se já não estão dentro dos lares. E olha que não faltam pautas para que os cristãos reajam, por exemplo: as políticas pró-aborto, em favor dos anticoncepcionais, do divórcio, da ideologia de gênero, entre outras, são pautas justíssimas de serem combatidas.
Essa omissão do cristão de hoje é motivo de festa para qualquer mundano. Caso não haja uma reação dos católicos, é bem possível que, em poucos anos, seja proibida a prática da fé publicamente, e aqueles que a praticarem privadamente serão perseguidos.
As pregações de Nosso Senhor, como a parábolas do grão de mostarda, do fermento e da luz sobre o alqueire, têm perdido o seu valor e só servem para o sermão da missa dominical, porque, na prática, já não se vive mais. O Cristão dos nossos tempos sabota o cristianismo pelo comodismo, vivendo conforme sua vontade. Em nome de uma respeitabilidade humana ou da prosperidade, evita-se falar do Cristianismo verdadeiro e de defender a fé. Por uma espécie de espírito burguês, reverencia-se a riqueza e o poder em detrimento dos princípios católicos.
Não esqueçamos que o cristianismo começou conflitando com o Império Romano e, devido a esse conflito, Cristo foi morto e seus discípulos martirizados. Os cristãos daquela época aprenderam e sabiam dizer não, enquanto que os de hoje a tudo dizem sim.[4]
Já que o ocidente não é cristão, é preciso, sob a perspectiva católica, dizer-lhe não. Ademais, é importante reforçar o perigo que ele nos apresenta, pois nos oferece um modus vivendi que não deixa de ser sedutor. O canto das sereias sempre é mais perigoso que o desembainhar de uma espada. Portanto, é preciso sustentar-se aos golpes, ao passo que devemos estar em guarda contra os encantos.
Diante de todo esse caos, é papel e dever do cristão evitar o pessimismo, porque isso nos levaria à inação. É um perigo eminente que o cristão não pode parar de combater. O homem não pode apenas buscar refúgio nas coisas de Deus de forma abstrata, senão que é seu dever se preocupar com as coisas temporais que o cercam. Ninguém se ocupa de Deus a não ser se preocupando com os homens. O pessimismo não é cristão – tampouco o desespero, que é uma forma disfarçada que pode conduzir à incerteza e à falta de combatividade. Desde São Paulo sabemos que o cristão precisa de um pouco de loucura e ousadia contra as coisas deste mundo: é pela loucura da pregação que aprouve a Deus salvar os crentes; e acrescentava que isto parecia “escândalo para os judeus e loucura para os gentios”.[5]
Não podemos desanimar se quisermos retomar uma nova cristandade. Monsenhor Guerry nos mostra o caminho ao dar os ingredientes para a receita do bolo: a Cristandade é aquela onde os cristãos se esforçam para concretizar nas instituições, nas estruturas da sociedade e da vida pública, as exigências de sua fé. Nosso papel é construir, com coragem e otimismo, a sociedade temporal, para que as palavras do Pater Noster tenham sentido: “…adveniat regnum tuum; fiat voluntas tua, sicut in caelum et in terra…”, lembrando que quando a fé é colocada entre os homens para animar as relações, torna-se Justiça e Caridade, dois princípios de sustentação da Cristandade.
Uma sociedade que consiga vencer estes desvios apontados acima e que busque uma santidade individual e comunitária terá todos os meios para iniciar a reconstrução de uma nova Cristandade. E se esta for a vontade e permissão de Deus, levantará novamente os tempos de ouro da Civilização Ocidental, com traços e princípios muitos fortes de uma civilização que poderá ser chamada de cristã.
Notas:
[1] Lc 12, 8-9.
[2] S. de DIETRICH, Le dessein de Dieu. Delachaux et Niestlé, Nuachâtel, 1948, pag. 221.
[3] Mt 11,12.
[4] “Dizei somente: ‘Sim’, se é sim; ‘não’, se é não. Tudo o que passa além disso vem do Maligno.” Mt 5,37.
[5] 1 Cor 1,21.